05:30 hs de um dia qualquer em fevereiro, nos idos de 1950.Vamos a pé, até o ponto do bonde em São Francisco Xavier. Pegamos qualquer um até a Central do Brasil. Na Pres.Vargas, visões das garagens de bondes da Light, os enormes tanques do Gasômetro, o sol nascendo, temperatura amena.Na Central,embarcamos no trem parador até Japeri. Sol alto, a Maria Fumaça, linda, impressionante, envolta em nuvens de vapor, resfolegante,prestes a partir.Embarcamos, ajeitamos nossas malas velhas, bolsas e sacolas de lanche e nos acomodamos nos bancos de madeira. Eu, perto da janela de onde verei as paisagens que adoro; matas, pequenos casebres e casas simples ao longo da via férrea; moradores que abanam as mãos em cumprimento à bela Maria que sacode de um lado pro outro, apita nas curvas, solta mais nuvens de vapor.Vejo as vaquinhas com seus bezzerros, cavalos, matas e mais matas.Caminhos de terra, carroças, grandes latões de leite deixados em pequenas paradas que nada mais são do que um telheiro e um banco de tábua.O trem pára por instantes e um ajudante iça os latões de leite que serão entregues na próxima estação.
Minha memória me trai agora e não sei bem a ordem das estações.
São muitas e já reconheço cada uma delas: papai sempre anuncia a próxima estação, mesmo antes do condutor apitar e o bilheteiro vir caminhando pelo corredor entre os assentos, avisando aos passageiros:Barão de Javari! Penso que era nessa que papai descia pra comprar queijo que nós comíamos com biscoitos. Era um queijo parecido com um requeijão, embalado em papel manteiga, que era cortado pelo canivete de mil utilidades que existe até hoje. Acho que Marco o herdou.Comprava também maçãs. Não havia refrigerantes engarrafados, nem sucos, nada disso.Bebíamos água trazida de casa em garrafas de vidro.
A viagem era longa e eu ficava perguntando o tempo todo: quanto falta, papai?
E lá ia a Maria Fumaça sacudindo nos trilhos , apitando e jogando fagulhas de carvão nos olhos da menina, debruçada na janela, encantada com as paisagens da área rural,cheia de histórias dos barões do café. E ela criava outras, viajava além das matas, no rítmo da locomotiva, correndo em direção ao paraíso: a Fazenda São Romão.E lá vinham as estações, e as caixas d'água para as caldeiras.
Arcadia, Arcozelo, Pedras Ruivas, Eng.Paulo de Frontein, Pati do Alferes,Miguel Pereira, Avelar,Werneck,CAVARÚ.Chegamos! É noite e não há ninguém na estação que está fechada.A caminhonete Rural Willis do" Seu Saul" nos espera. Embarcamos sonolentos e subimos a estradinha de terra, tortuosa e perigosa em dias de chuva.
Ah! os cheiros da chuva encharcando o chão seco e as árvores!
Viajamos no escuro total, a estrada iluminada apenas pelos faróis do carro.Avistamos a estradinha na entrada da Fazenda: chegamos,eu sinto o cheiro familiar e confortador da terra e dos animais; estou em casa. Estou no Paraíso!Papai, mamãe e a irmãzinha também...
O resto é uma outra historia que fica para uma outra vez.
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