quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Marraio, feridô sou rei

Quando era criança eu adorava as bricadeiras dos meninos: jogar "gude", fazer pipa, soltar pipa, jogar futebol, subir em árvores, apostar corrida e por aí vai...
Adorava brincar de médico, de casa, com papaéis definidos de pai, mãe, filha, etc..
Comprava cigarro continental à varejo e acendia pra ser "o pai". Freud explica e tanto explica que mesmo brincando com as meninas, de roda, de casinha, de cozinhar - eu ADORAVA cozinhar- os anos de terapia me ensinaram a perceber os insights.Um deles, eu gostava de brincar com os meninos porque eu já gostava muito de aparecer para os meninos.PODE!!!! A respeito de cozinhar ...
Vovó punha uma panelinha pequena sobre um fogareiro a álcool e eu cozinhava arroz, macarrão, fritava batata, e distribuía entre a irmã, os primos(as) presentes e a Viga ou a Regina, as amigas de toda a minha infância. Sofri muito quando elas em plena puberdade, aos 12 anos mais ou menos, se mudaram pra Ipanema. Um ano depois fui até lé, de ônibus.Foi triste, não foi alegre esse encontro. Elas não eram as mesmas. Eu também devia ter mudado. Não lembro muita coisa mas o apto era minúsculo, escuro e velho.Não lembro mais nada.Falando da Vovó, além de ser maravilhosa, me ensinou tudo que sei sobre cozinhar e despertou em mim o prazer de cozinhar como oferenda, como uma dádiva de amor.
Mas voltando às brincadeiras, tive uma infância rica, criativa, cheia de liberdade pra inventar e com isso sublimava as dificuldades de viver numa família aflita, onde a comunicação inexistia, e eu me refugiava no banheiro da empregada quando o pau comia.
Nem assim consigo pensar em ter sido infeliz; posso pensar em "um pouco de negligência" mas meus pais e avó, e a tia Thereza faziam o que podiam: eles não sabiam mesmo como cuidar emocionalmente do desenvolvimento de uma criança. Não se prestava muita atenção nelas. Incrivelmente, algumas se salvavam por si mesmas.
Não sou perfeitinha e sou complicada mas não lembro de ser infeliz, apenas tinha dias difíceis.
Bota difícil nisso mas eu sobrevivi e não me queixo, hoje aos 64 de idade, daqueles que cuidaram amorosamente de mim, à moda deles, mas cuidaram.
E eu acabei me transformando nessa pessoa que adora viver e lembra com amor e saudade dos meus queridos que já se foram.

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